Enfrentamento da crise hídrica mundial depende de intercâmbio de ações, pesquisa e inovação tecnológica


Cuiabá (MT) recebe, entre os dias 2 e 4 de outubro, o quinto Preparatório da Engenharia e da Agronomia para o 8º Fórum Mundial da Água. A agenda de debates entre profissionais da área tecnológica, organizada pelo Confea e sediada pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Mato Grosso, será centrada no enfrentamento internacional da crise hídrica, como adianta o presidente em exercício do Crea-MT. “As discussões e tomadas de atitudes necessitam ocorrer de forma global e com a participação ativa e multidisciplinar dos profissionais. Mato Grosso, que conta com mais de 23 mil profissionais da área tecnológica, tem muito a contribuir, seja nos debates ou na propositura de ações e metas”, afirma o eng. eletric. Marcos Vinícius da Silva na entrevista a seguir.

Para ele, a rodada de palestras é uma oportunidade para apresentar ao mundo projetos desenvolvidos para prevenir problemas relacionados à escassez de recursos hídricos na região – famosa por ser irrigada pelas grandes bacias hidrográficas Amazônica, Platina e Tocantins e por também abranger os biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal. “Acredito que aqui, justamente por estarmos interligados numa ampla região que é banhada por rios tão importantes, possamos discutir experiências que possam ser replicadas em outras partes do mundo […], que saiam possíveis propostas que possam ser levadas à discussão internacional, como instrumentos para a criação de políticas públicas que sejam, de fato, implementadas pelo mundo afora. Afinal, todo esforço é visando a uma contribuição que extrapole a situação brasileira”, conclui o anfitrião do preparatório que terá início às 19h, do dia 2, no Hotel Deville Prime Cuiabá.

Site do Confea: Nos Preparatórios de Campinas, de Manaus e de Colatina foi ressaltado que é dos profissionais da área tecnológica que se espera a maior contribuição para o Fórum Mundial. Qual sua avaliação sobre a iniciativa de o Sistema Confea/Crea e Mútua promoverem esse ciclo de palestras com foco principalmente, nas soluções para a crise hídrica?

Marcos Vinícius Silva: Além do problema da seca no Nordeste, a partir de 2014 o Brasil vem sofrendo com a questão hídrica, apesar de ser considerado o país de maior potencial hídrico do mundo. Por questões geográficas, há uma distribuição dos recursos distinta num país de dimensões continentais como o nosso, além disto, podemos incluir ainda uma falta de gestão por parte do governo. A crise ocorrida em São Paulo no último ano mostra exatamente isso. Toda esta situação traz à discussão a questão da água, não só no Brasil como no mundo. Buscar soluções para a crise hídrica no nosso país é sempre importante. E os profissionais da área tecnológica têm muito a contribuir nas discussões sobre os efeitos da crise hídrica, tanto sobre o consumidor que faz uso doméstico desse insumo, quanto sobre a indústria e a agricultura. A área tecnológica está preparada para apresentar medidas de enfrentamento a esta crise, que resultem em mudanças permanentes e positivas nas diversas fases de gestão hídrica, como a captação, transporte, tratamento e distribuição da água. Assim, vejo a iniciativa do Confea como de extrema importância, pois como um país de grande potencial, tanto hídrico como de biodiversidade e, tudo isso está interligado, temos que chamar a atenção para a questão e, ao mesmo tempo, buscar formas de trabalhar instrumentos e políticas que possam ir dirimindo este problema e, já planejando como de fato, enfrentar esta situação de forma que as futuras gerações tenham novos comportamentos e mais tranquilidade frente à questão.

Site do Confea: Enquanto anfitrião do quinto preparatório, quais temas o senhor acredita que devem ganhar destaque na agenda de debates, considerando o contexto regional?

M.V.S.: Dentro de um contexto regional vão se destacar os debates envolvendo o assoreamento dos rios, a necessidade de implementação de planos municipais de saneamento básico, a gestão racional e eficiente da água, o impacto da agricultura sobre a qualidade e quantidade de água dos rios, a ocupação irregular em áreas de preservação permanente, o desmatamento indiscriminado, a preservação das matas ciliares, a necessidade de investimento por parte do poder público em pesquisa para incentivar inovação tecnológica. Contudo, estes problemas se repetem em outras regiões do país e, ao mesmo tempo, não contemplam todas as dificuldades enfrentadas em diferentes espaços em que a água é o tema principal.

 

Site do Confea: Que contribuições profissionais da área tecnológica de todo o país podem apresentar durante o evento preparatório na capital mato-grossense?

M.V.S.: Acredito que o fato de termos três ecossistemas aqui no Estado aumenta a responsabilidade dos profissionais na ampliação da discussão. Isto permite não só que profissionais de outras regiões, mas nossos próprios profissionais e pesquisadores possam contribuir muito com a discussão, trocando experiências e ampliando o campo de visão sobre o problema. A união de experiências de profissionais de outras regiões, com a vivência de profissionais de Mato Grosso, pode auxiliar na construção de caminhos e de alternativas que sejam viáveis para levarmos à discussão internacional. Desta feita, as contribuições estarão no intercâmbio de ações e inovações tecnológicas entre os participantes, o que criará uma rede de informações entre as diversas modalidades da engenharia e das regiões, se estendendo às discussões que resultarão em sugestões de ações estratégicas e de políticas públicas para uma gestão eficiente e racional da água.

Site do Confea: Mato Grosso tem a experiência do Projeto Verde Rio – o Instituto Ação Verde – que foi considerado case de sucesso durante a Rio+20 (evento ambiental da ONU realizado em 2012). O objetivo do projeto é reflorestar a mata ciliar dos principais rios do estado. Mais de 75 mil mudas já foram plantadas pelo projeto. O senhor acredita que esse é um bom exemplo de como Mato Grosso pode contribuir para os debates do início de outubro? Que outras experiências Mato Grosso pode apresentar?

M.V.S.: O Projeto Verde Rio completou dez anos de trabalho, surgindo a partir da união de setores produtivos do Estado, muitos considerados prejudiciais ao meio ambiente. Com atuação na preservação, recuperação de matas ciliares e educação ambiental, creio que estão fazendo a parte deles, mas este é um processo, uma forma de atuação em prol do meio ambiente e, consequentemente, da proteção das nascentes e dos nossos rios. Se formos pensar em experiências positivas, o próprio manejo florestal sustentável, feito atendendo à legislação, aqui no Estado – um dos maiores em floresta nativa, já é um processo que a engenharia vem realizando em benefício do meio ambiente e, automaticamente, da nossa água.

Site do Confea: Cuiabá está localizada exatamente no meio do caminho entre o Atlântico e o Pacífico, ou seja, em linha reta é o ponto mais central do continente. Isso fica no centro geodésico da América Latina. O que isso significa?

M.V.S.: Significa não só um marco histórico que definiu essa cidade como o ponto mais central da América do Sul, determinando que a nossa cidade seja conhecida como o “coração da América do Sul”, mas que esse ponto, demarcado há 108 anos pela Comissão Rondon no largo do Campo D’Ourique, hoje praça Pascoal Moreira Cabral, região central de Cuiabá, é para os cuiabanos e mato-grossenses muito mais do que um mero ponto físico. Como bem disse o ilustre geógrafo Anibal Alencastro, “o centro geodésico em Cuiabá é um fato que já faz parte da nossa história e de nossa literatura”, pois quando falamos em Centro Geodésico da América do Sul nos remetemos a um dos símbolos da nossa cidade que é a bandeira de Cuiabá, a qual ostenta o obelisco referente a esse marco. Nossa bandeira foi criada, com o apoio do jornalista Pedro Rocha Jucá, por um profissional do nosso Sistema Confea/Crea: o Técnico em Edificações Nilton Benedito de Santana, formado pela antiga Escola Técnica e atual IFMT.  E quando falamos em Centro Geodésico da América do Sul, também estamos falando do ilustre mato-grossense Marechal Rondon que se destacou em várias áreas atinentes ao Sistema Confea/Crea, pois além do trabalho junto às populações indígenas e à criação do Parque Nacional do Xingu, Rondon era genial em cálculos matemáticos, geográficos e astronômicos, os quais nortearam o seu trabalho de extensão de linhas telegráficas que possibilitaram as comunicações com o Norte e Centro-Oeste do país; bem como o estabelecimento dos limites de toda fronteira do Brasil com as Guianas, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai além dos marcos entre o Peru e a Colômbia. Marechal Rondon também nomeou rios, montanhas, vales e lagos, registrou a topografia de regiões até então não desbravadas, fez o mapeando das regiões, nomeando rios, montanhas, vales e lagos; estudou e registrou a flora e fauna. Esse brilhantismo determinou que o Marechal Rondon recebesse da Sociedade Geográfica de Nova York o Prêmio Livingstone, medalha de ouro, por suas contribuições ao conhecimento geográfico.

Site do Confea: Quais são suas expectativas quanto aos resultados das discussões que serão promovidas em Cuiabá?

M.V.S.: Os profissionais da área tecnológica têm a responsabilidade de evitar os problemas, em vez de apenas buscar soluções depois que as crises surgem. Temos que aproveitar eventos como o Fórum para exigir maiores investimos em pesquisa científica. Para incrementar as inovações tecnológicas, temos que promover e incentivar debates sobre políticas públicas envolvendo o insumo Água, temos que intercambiar informações e ampliar a rede de difusão de iniciativas de sucesso na gestão eficiente e racional da água. Diante disto, a expectativa é que assim como vem ocorrendo em outras cidades, que aqui tenhamos um alto nível de discussões e, consequentemente, que saiam possíveis propostas que possam ser levadas à discussão internacional, como instrumentos para a criação de políticas públicas que sejam, de fato, implementadas pelo mundo afora. Afinal, todo esforço é visando a uma contribuição que extrapole a situação brasileira.

Site do Confea: De acordo com integrantes da organização do Fórum Mundial da Água, o Fórum não vai ser brasileiro. Vai ser latino-americano, com o tema “Compartilhando água”. Eles utilizam como exemplo rios que passam por Espanha, Portugal e França. Se cada um for legislar sobre os rios à sua maneira, cria-se uma crise internacional. 33% do Rio Paraguai está no Brasil. O restante passa pela Argentina, pela Bolívia e pelo Paraguai. O senhor acredita que os profissionais de Mato Grosso podem levar experiências com esse tema para o Fórum Mundial de 2018?

M.V.S.: Certamente que a escassez de recursos hídricos não é um problema exclusivo de uma região ou de um país. Por mais que um rio esteja num determinado país, os efeitos negativos sobre ele afetarão muito além das suas fronteiras geográficas. Aqui no Brasil, inúmeras regiões já sinalizaram a preocupação de racionar água em um futuro não muito distante, caso medidas urgentes e eficientes não sejam tomadas. Isso certamente já encerra o questionamento de tratar ou não o problema de forma isolada. As discussões, decisões e tomadas de atitudes necessitam ocorrer de forma global e com a participação ativa e multidisciplinar dos profissionais. Mato Grosso, que conta com mais de 23 mil profissionais da área tecnológica, tem muito a contribuir seja nos debates ou na propositura de ações e metas. Acredito que aqui, justamente por estarmos interligados numa ampla região que é banhada por rios tão importantes, possamos discutir experiências que possam ser replicadas em outras partes do mundo.

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Beatriz Leal e Julianna Curado

Equipe de Comunicação do Confea