Experiências nordestinas para o uso de água se destacam em Evento Preparatório às margens do Rio São Francisco


Marco Amigo: Ninguém melhor para pensar o tema da água do que quem trabalha diretamente com ela

A experiência da região Nordeste em torno dos desafios para a obtenção e uso dos recursos hídricos nortearão o 6º Encontro Preparatório para o Fórum Mundial da Água, a ser realizado a partir desta quarta (18), em Juazeiro (BA). Esse é um dos aspectos levantados pelo presidente do Crea-BA, Eng. Mec. Marco Antônio Amigo, na entrevista a seguir. Ele sustenta ainda que o fato de o evento ser realizado às margens do Rio São Francisco intensificará as discussões a respeito de sua preservação. “O Encontro será uma chance de mais uma vez falarmos sobre a urgência do processo de revitalização do Rio São Francisco”.

Site do Confea: Como o senhor percebeu o interesse dos profissionais da área tecnológica pelo Preparatório e que tipos de contribuições o senhor acredita que eles poderão oferecer para serem encaminhadas ao Fórum Mundial da Água?

 

Falando pelo Nordeste, que é a região onde será realizado o Encontro Preparatório, temos muito o que contribuir. O nordestino sabe o que é conviver com a seca, como sobreviver usando quantidades reduzidas de água. O clima semiárido, em que predomina a escassez de chuvas, fez com que aqui no Nordeste se desenvolvessem técnicas e habilidades fundamentais no sentido de retardar a perda de água, de preservar este recurso a todo custo e mesmo assim garantir o desenvolvimento da agricultura e da pecuária. Temos como exemplo o projeto Um Milhão de Cisternas que ficou em segundo lugar no Prêmio Internacional de Política para o Futuro 2017. São iniciativas como esta que demonstram que o nordestino tem muito a ensinar.

 

Site do Confea: Qual a importância desse ciclo de palestras, que agora chega à Bahia? Quais os principais temas a serem abordados em Juazeiro?

Esta é uma oportunidade única para a Engenharia e a Agronomia colaborarem com um tema importante para o nosso país, o nosso estado. São essas profissões que movem o país, elas são fundamentais quando pensamos em novas tecnologias e melhoria de processos. O Sistema Confea-Crea e Mútua tem, sem dúvidas, muito a contribuir neste debate. Em Juazeiro vamos abordar quatro temas em mesas redondas técnicas. Elas serão: Água e Meio Ambiente, Água e Cidades, Água e Desenvolvimento Econômico e Água e Saneamento Básico. Os palestrantes do evento serão especialistas de renome local e nacional nos temas.

 

Site do Confea: O que representa a realização deste evento em torno da gestão hídrica em uma região diretamente ligada ao Rio São Francisco?

O Rio São Francisco é um patrimônio hídrico e cultural fundamental para o povo nordestino. É ele quem garante a sobrevivência de várias comunidades e gerações em pleno sertão. Mas o rio que dá a vida está correndo risco não só por causa das mudanças climáticas, como também devido ao assoreamento do seu leito, captação ilegal da sua água, entre outras questões. A realização do Fórum da Água vai intensificar as discussões na sociedade a respeito da preservação do rio. O Encontro será uma chance de mais uma vez falarmos sobre a urgência do processo de revitalização do Rio São Francisco. Vivemos um momento em que o rio enfrenta redução no seu volume, passando por mais sua grave crise hídrica, ameaçando a subsistência de quem precisa do rio para sobreviver. Precisamos investir mais e tratar como prioridade a revitalização do São Francisco. O Velho Chico não pode morrer. O Crea-BA vem insistindo neste tópico há mais de uma década. Desde 2002, o Conselho realiza a Fiscalização Preventiva Integrada (FPI) do São Francisco, atuando no diagnóstico da degradação ambiental e promovendo ações em prol da preservação do rio e seus afluentes. Já fizemos pelo menos 40 etapas, contemplando 115 municípios da Bacia Hidrográfica do São Francisco.

Site do Confea: Em um cenário de seca na região e redução da vazão de barragens, a transposição do São Francisco será contemplada na discussão? De que maneira?

Não de forma específica, mas é inevitável tocar neste tema. A transposição do Rio São Francisco passa por várias das discussões que teremos no Encontro Preparatório. Quando falamos de abastecimento de água, por exemplo, é impossível não pensar no caso do São Francisco. A obra da transposição aconteceu para suprir um problema de abastecimento, mas temos que refletir sobre os seus impactos no Rio, que hoje passa por dificuldades. Quando falamos de água e meio ambiente, como não pensar no assoreamento do leito do São Francisco por causa de problemas ambientais? Também é possível a importância da preservação do bioma local para garantir a sobrevivência do Rio.

Site do Confea: A crise hídrica é um processo hoje mundial, tanto que o tema do Fórum será “Compartilhando Água”. O senhor acredita que os profissionais da área tecnológica possam contribuir para a prevenção e a minimização deste problema, apesar da atual crise do País?

Ninguém melhor para pensar o tema da água do que quem trabalha diretamente com ela. São os profissionais da área tecnológica que estão aí no mercado, nas universidades, no terceiro setor desenvolvendo soluções para os mais diversos problemas ambientais no país. Como estão enfrentando desafios no dia a dia, são capazes de desenvolver soluções até mesmo com poucos recursos. Trago mais uma vez o exemplo do semiárido, em que há muito tempo soluções de baixo custo são desenvolvidas para garantir o abastecimento de água. Em relação ao Crea-BA, estamos completamente afinados com o tema da água e prontos para formular proposições para o desenvolvimento sustentável e preservação dos recursos naturais. Somente em 2017 realizamos dois grandes eventos tendo a água como principal tema. No Agenda Bahia de Desenvolvimento trouxemos um especialista internacional para falar sobre redução de perda de água e como fazer a gestão dos recursos hídricos em um país em que a estiagem é uma realidade permanente. Já no Semear Água, debatemos sobre a importância de como a proteção do ecossistema ajuda na recuperação e preservação dos mananciais hídricos.

Henrique Nunes
Equipe de Comunicação do Confea