Propostas nordestinas para a gestão hídrica


Conselheiro federal Alessandro Machado em visita ao reservatório de SobradinhoNa noite da última quarta-feira (18), o conselheiro federal Alessandro Machado participou da mesa de abertura do 6º Evento Preparatório da Engenharia e da Agronomia para o Fórum Mundial da Água, realizado até esta sexta (20), no Complexo Multieventos da Universidade do Vale do São Francisco, em Juazeiro (BA). No dia seguinte, o engenheiro civil baiano participou da mesa “Água: a próxima guerra”, que reuniu o engenheiro químico e consultor em saneamento e meio ambiente Celso Luís Giampá, autor de um livro com o título da palestra, e ainda o meteorologista Augusto Pereira Filho e o especialista em desenvolvimento Nelton Friedrich.

Na entrevista a seguir, Alessandro Machado discorre sobre a importância da realização do evento em uma das bacias hidrográficas mais importantes do país, responsável pelo desenvolvimento de parte significativa da região Nordeste, e que enfrenta uma inédita redução de seu volume acumulado e da vazão dos reservatórios de Xingó e de Sobradinho, ao mesmo tempo em que vê reduzidos ainda os investimentos em torno da transposição das águas do Rio da Integração Nacional.

 

 

Site do Confea: A importância dos profissionais da área tecnológica para a superação dos diversos tipos de crise hídrica do país vem sendo defendida em todos os Preparatórios anteriores. Qual o significado de mais este evento do Sistema Confea/Crea, agora em Juazeiro?

O significado demonstra o envolvimento do Vale do São Francisco,  maior reserva hídrica da América Latina, composto pelo rio São Francisco e seus afluentes, sendo a maior obra de engenharia de reservação da América Latina que visava atender à geração e produção agrícola. Através deste manancial, também é o grande fornecedor de água para outros estados, através da sua evaporação, os denominados rios aéreos. Identificamos que a seca nos seus afluentes acaba comprometendo a drenagem natural na sua foz,  motivo de redução da vazão do seu curso natural, hoje limitada a 500m³/s. Atualmente, o rio está com apenas 6% de sua reserva. Em visita técnica a Sobradinho,  constatamos que a região é extremamente árida, embora muito fértil, e que sempre foi fonte de investimentos em irrigação pelo governo federal. Esta condição decorre da atuação do visionário ex-senador Nilo Coelho, desde 1969, o que fez com que a região se tornasse um importante produtor de frutas e hortaliças, pesca e produtos, tais como o melhor vinho do Nordeste, sendo até denominada de produtora de ouro amarelo (o melão) e ouro verde (a uva), entre mais de 40 tipos de frutas, que abastecem o mercado nacional e internacional, constituído por ação da engenharia e da agronomia. Isso justifica a realização do evento na sub-região que mais se desenvolveu, compreendida pelas cidades de Juazeiro (Bahia) e Petrolina (Pernambuco) e que se tornou o maior conglomerado urbano do semiárido. Sua produção envolve atualmente mais de 240 mil empregos diretos, abrangendo a distribuição em Petrolina e no porto de Suape, em Pernambuco,  e ainda no porto de Salvador, e fazendo de Juazeiro-BA o maior entreposto comercial do Norte-Nordeste do Brasil. Para escoar a produção da maior região exportadora de frutas do Brasil, a cidade possui a maior pista de aterrissagem do Nordeste, com 3.250 metros, uma obra de engenharia moderna que é um dos 65 maiores aeroportos do País, em termos de movimentação de passageiros. Lembrando os versos do pernambucano Jorge de Altinho, em “Petrolina, Juazeiro”, isso é resultado de uma ponte construída a partir de ações da Engenharia para integrar toda a região. Apesar dessa pujança, inclusive cultural, devido à seca que avança o Rio São Francisco dia após dia, a produção agrícola passa a minguar e ser comprometida, ameaçando esses 240 mil empregos diretos, entre os quais estão presentes os profissionais da Engenharia e Agronomia nos quatros estados que abastecem o mundo com seus produtos.

Site do Confea: Juazeiro é um dos mais célebres municípios banhados pelo Rio São Francisco, uma referência cultural e econômica para a região, responsável até por uma respeitada produção de vinhos.  Mesmo assim, a cidade mantém características do semiárido nordestino, que hoje vê na transposição do rio uma de suas maiores esperanças.  Nesse contexto, quais podem ser as principais expectativas de Juazeiro em relação a esse Preparatório?

O Preparatório revelará como esta região pode contribuir para ampliar seu potencial hídrico e seu respectivo efeito produtivo, que ainda poderia ser muito expandido pelo interior adentro. Acredito que seria dada continuidade à manutenção do homem junto ao interior, expandindo seus aquedutos, obras diversas de engenharia que hoje têm sustentado o Brasil com a sua agropecuária, diminuindo o êxodo e a expansão urbana desordenada das grandes cidades. Certamente, o Preparatório apresentará a noção de que todo o efeito produtivo se reflete na condição de segurança que a região oferece à população, como: baixo índice de criminalidade, melhoria da educação e oportunidade de crescimento para toda a população nordestina, ora já implantada em Juazeiro e Petrolina, bem como nos municípios vizinhos, os quais refletem um desenvolvimento sustentável. Esta é a prova de que a água do rio é exportada para outros países, via produtos originados da respectiva captação e reserva. A transposição recebeu um aporte grande de recursos, interrompidos nos últimos anos. Agora, pela necessidade de não seguir para o mar o líquido precioso, a água está voltando gradativamente para manter a integração de bacias no semiárido da Paraíba e do Ceará.

Rio São Francisco, na região de Sobradinho, em outubro de 2017
Rio São Francisco, na região de Sobradinho, em outubro de 2017

Site do Confea:  A transposição recebeu um aporte grande de recursos, interrompidos nos últimos anos, e agora voltando a conta-gotas.  O que a transposição representa para a região, para os profissionais e para onde podem ser orientadas as perspectivas de abastecimento e de investimento na Bacia do Velho Chico, no momento em que a seca na região aumenta, a ponto de a vazão da Chesf em Xingó haver sido reduzida a níveis inéditos, para 500 metros cúbicos por segundo?

Tudo passa por uma parada gradativa da reservação, ocasionada pela seca, o que compromete a produção agrícola. Já virou rotina que, todas as quartas-feiras, a captação para irrigação seja suspensa, como uma forma de amenizar o consumo da riqueza hídrica em esgotamento. Este já é um ato de conscientização ecológica da retirada exagerada da água para a manutenção. Mas o problema está principalmente nos afluentes, que, sem matas ciliares e zonas de proteção, por falta de chuva, já comprometem a manutenção do maior lago artificial da América Latina, a Barragem de Sobradinho. Até o clima da região tem mudado. Estive aos 8 anos de idade em companhia do meu pai e presenciei o rio imenso, digno de vistas oceânicas, nos seus 380 quilômetros de extensão. Trinta e seis anos depois, a situação é outra, totalmente diferente. Lembrando que o projeto é de 1970, uma obra com tecnologia ainda da extinta da Cooperação entre o Brasil e a União Soviética com a usina de Sobradinho, em conservação pela Chesf – Cia Hidroelétrica do São Francisco. Com esse contexto, acredito que transferir água do que já está com vazão diminuta é correr o risco de comprometer todo o fluxo de água doce natural que manteria a água do Baixo São Francisco potável a insalubre, com o avanço do oceano rio adentro.

Site do Confea: Quais os principais alertas e os principais méritos que a convivência com os desafios hídricos cotidianos da região podem levar ao Fórum Mundial da Água?

O primeiro será a educação ambiental e a implantação e reúso da água. De forma que não haja desperdício, bem como a implantação de tratamento de água para reúso. O Brasil pouco adota o reúso, desprezando o líquido precioso, que é a água, apenas por tê-lo em abundância. Enquanto países tiram água do mar e as dessalinizam, o país tem um potencial de reúso pouco explorado. É preciso tratar e retornar. Além de propor soluções para o equilíbrio hídrico em uso associado de energias renováveis. Com as tecnologias presentes, o potencial energético solar que o semiárido detém não precisaria do uso de hidrogenação, embora tudo dependa de investimento, o qual será recuperado para o potencial hídrico de acúmulo e uso de forma mais nobre.

Para o conselheiro é preciso promover investimentos em saneamento básico e uso de energia solar nas capitais
Para o conselheiro é preciso promover investimentos em saneamento básico e uso de energia solar nas capitais

Site do Confea: Que contribuições o senhor acredita que os profissionais nordestinos  poderão dar ao Fórum Mundial de 2018?

Da importância de preservar, tratar e propor formas de uso de tecnologias “verdes” para o gerenciamento e a sustentabilidade da água e uso da geração verde. A energia solar é hoje para o Brasil um grande desperdício.  Não dá apenas usar, indiscriminadamente. O esgoto pode ser tratado e reutilizado. É assim que é feito em outros países, que se dedicam para que as coisas funcionem. Todos preservam seus mananciais, nós exploramos e não conservamos. Nós temos a prática de lançar os dejetos no sistema hídrico e concorrer o sistema de águas pluviais das cidades com o saneamento. Ou seja, a água que poderia ser aproveitada, passa a ser inservível. Em Salvador, o Rio Camurujipe corta a cidade totalmente contaminado e desemboca, seja via Rio Vermelho, seja via Boca do Rio, nas praias da Pituba, contaminando todas as praias da orla, principalmente nos períodos chuvosos.Esse comprometimento dos sistemas hídricos pluviais acontece em todas as grandes capitais, como em Maceió, Recife etc, transformando-as em esgotos a céu aberto. Ou seja, todos os rejeitos correm a céu aberto e o que poderia ser aproveitado é totalmente contaminado. Hoje, gasta-se em média  12 reais por habitante para tratar as doenças que infestam o país. São séries de infecções de cidades não inteligentes, mas sim cidades doentes que têm seus esgotos correndo nas sarjetas e nos córregos. Cito que, em todas as grandes cidades brasileiras que já visitei, o problema é o mesmo. Um caso de saúde pública, de total demérito e prejuízo pela falta da ação de investimentos de engenharia para a manutenção dos seus mananciais. Os órgãos que cuidam do saneamento não têm a capacidade de gerir o que produzem, nem se dispõem a organizar o planejamento urbano de cidades totalmente irregulares, enquanto deveriam existir políticas públicas de saneamento que investissem apenas R$ 4 per capita para que a população não adoecesse. Porque quem está na parte de cima bebe água limpa. No código Civil ainda persiste que Art. 1.288, que “o dono ou o possuidor do prédio inferior é obrigado a receber as águas que correm naturalmente do superior, não podendo realizar obras que embaracem seu fluxo; porém, a condição natural e anterior do prédio inferior não pode ser agravada por obras feitas pelo dono ou possuidor do prédio superior”. Ou seja, é assim nas leis que regem o nosso país, causando efeito legal à cultura da população. Todos os rios e mananciais no Brasil estão sendo dizimados. A Baía da Guanabara, os rios da Região Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Norte, tudo por falta de controle de origem e lançamentos de detritos, os quais nem sempre são mapeados. Temos que não contaminar e propor o uso racional da água. O uso de tecnologias para produção energética do potencial solar que o Nordeste do País possui é de 14,7%, o maior do Brasil. No entanto, o Brasil insiste em adotar a elevação de potência energética por solução hídrica de 58,5% e não solução solar, com menos de 23MW. Conforme reportagem do Correio Braziliense, o nosso potencial é 28 mil vezes o uso da energia originada do potencial hídrico, uma potência de 163 vezes o potencial hídrico instalado. Seria tanta energia que daria até para dessalinizar a água do mar ou propor inúmeras soluções sustentáveis.

 

Henrique Nunes
Equipe de Comunicação do Confea