Falta de precisão e de mensuração de dados é obstáculo a abastecimento pleno de água


A mensuração dos dados é um obstáculo ao abastecimento pleno de água e a preservação deste importante recurso natural, segundo os pesquisadores Asher Kiperstok e Maria Helena del Grande. Os especialistas em saneamento básico apontaram as consequências desta situação durante a mesa-redonda Água e Saneamento Básico, parte do Encontro Preparatório da Engenharia e da Agronomia para o Fórum Mundial da Água, realizado de 18 a 20 de outubro no Complexo de Multieventos da Univasf, em Juazeiro (BA).

A engenheira química e doutora em recursos naturais Maria Helena del Grande mostrou que a falta de dados intramunicipais de saneamento contribui para uma distribuição desigual de água. Através de um estudo de caso na cidade de Campina Grande, município que sempre sofreu com a escassez hídrica, ela apontou que pessoas que moravam em locais mais altos ou mais distantes do reservatório ou tinham dificuldades de reservação (principalmente por conta de questões financeiras) sofriam mais com a falta de água.

Ela chegou a esta conclusão após pesquisa realizada durante o período de racionamento de água no município entre novembro de 2014 e junho de 2016. Durante os 21 meses em que a restrição esteve em vigor, somando-se as horas que os usuários ficaram sem água, o estudo apontou que enquanto alguns bairros chegaram a ficar tempo equivalente a 13 meses desabastecidos outros ficaram apenas 7 ou 8 meses. “Existiu uma distribuição de água desigual. O racionamento, que é aplicado como uma medida justa, era sentido de forma diferente pelos usuários”, concluiu.

Baldes furados

Os especialistas apontam que as gestões públicas como um todo não fazem a sua parte de forma adequada. Além de colocarem a culpa no usuário pela falta d’água, empresas de saneamento não dão o exemplo, não controlando as próprias perdas.

“Nós administramos sistemas que são verdadeiros baldes furados. O furo está no sistema público e o sistema diz que está nos domicílios”, apontou o engenheiro civil e coordenador da Rede Tecnologias Limpas da Universidade Federal da Bahia, Asher Kiperstok. Para ele, perdas de água durante o transporte da fonte de abastecimento até a casa dos usuários são, em média, da ordem de 40% em nível nacional. Logo, ligações clandestinas de água têm peso, mas não são o principal entrave da queda da água potável disponível.

Porém este número pode ser ainda maior, segundo ressaltou Kiperstok. Ele considera os dados de perda de água do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), que são base para políticas públicas, muito imprecisos, pois a margem de erro para estas informações é de cerca de 50%. “O grave disso é que você tem um país que não gerencia suas perdas. Se você tem uma fábrica de sapatos que tem perdas de 50% da produção, ela vai à falência”. Sem estes dados precisos, não é possível fazer um cálculo adequado sobre a renovação da rede, outra informação de que as companhias de abastecimento não produzem, segundo o engenheiro civil.

O especialista defende que os órgãos públicos de saneamento parem de buscar água cada vez mais longe, fazendo somente gestão da oferta, e façam gestão da demanda. Citando Allan Lambert, defensor da gestão da demanda, ele pontuou que é preciso admitir a falta de controle sobre as perdas de água, fazer uma mensuração da fuga destes recursos e elencar ações para resolver o problema.

Técnicas de convivência com a seca e defesa da agricultura irrigada encerram fórum

Os debates que encerraram o 6º Encontro Preparatório da Engenharia e Agronomia colocaram em destaque temas como a proteção dos serviços ecossistêmicos e as técnicas de sobrevivência com a seca e a defesa da utilização da tecnologia e engenharia para a fomentação da agricultura irrigada. A última mesa-redonda “Água e Desenvolvimento Socioeconômico” contou com a participação dos palestrantes: a geóloga e professora Márjorie Cseko Nolasco e o pesquisador da Embrapa Cerrado Lineu Neiva Rodrigues.

Nolasco focou sua apresentação no uso socioeconômico da água, destacando a proteção dos serviços ecossistêmicos (solo, nutrientes, água, ar) e valorização do saber local. Condenou a  instalação de poços, afirmando que os mesmos retiram água dos rios, lagos e outras fontes. Garantiu que as técnicas de convivência do semiárido podem agregar valor ao 8º Fórum Mundial da Água. “Precisamos dar visibilidade ao segundo melhor projeto de combate a desertificação, como  a construção de mais de um milhão de cisternas e outras tecnologias desenvolvidas pelas comunidades para guardar água, demonstrando a experiência daqueles que mais convivem com a estiagem”, revelou.

A palestrante  destacou ainda o importante papel da educação no empoderamento das comunidades e sugeriu ao Sistema Confea/Crea a criação de um prêmio focado na questão: Como fazer sem água?, bem como a ampliação da participação institucional nos comitês e conselhos existentes. “Precisamos ajudar os nordestinos a permanecerem em sua região”, frisou.

Sob uma ótica mais global, o pesquisador Lineu Rodrigues defendeu a produção irrigada de alimentos associada à proteção dos recursos hídricos. A abordagem do especialista focou o uso da tecnologia e engenharia para ampliar os horizontes de produção. Citou a necessidade de as instituições conversarem para enfrentarem os impactos previstos pelas mudanças climáticas e estresses térmicos, bem como a necessidade de aumentar em 70% a produção de alimentos.  “Precisamos nos organizar no sentido de garantir água, energia e alimento. Só conseguiremos com planejamento e envolvimento de instituições como o Sistema Confea/Crea”, afirmou.

Como sugestão para o 8º Fórum Mundial da Água,  o pesquisador da Embrapa destacou atenção aos planos de recursos hídricos com metas para que sejam identificadas lacunas e implantadas estratégias  como a integração da Política Nacional de Recursos Hídricos com outras já existentes. “A  má distribuição e a falta de gestão da água são nossos maiores entraves, precisamos solucioná-los para continuarmos produzindo muito e com qualidade”, finalizou.

Mundial da Água 

O Encontro Preparatório da Engenharia e da Agronomia para o Fórum Mundial da Água aconteceu em Juazeiro, no Complexo Multieventos da Univasf. Profissionais da área tecnológica de todo o Brasil estiveram reunidos para debater temas pertinentes ao uso sustentável da água e preservação dos recursos hídricos. O evento visa coletar sugestões do Nordeste para levar até o Fórum Mundial da Água, que acontece em Brasília entre 18 a 23 de março de 2018, e é uma realização do Sistema Confea/ Crea com apoio da Mútua.

Carol Aquino/ Nadja Pacheco
Crea-BA